Quarta, 27 Mai 2020

"O Espelho" é o filme mais pessoal de Andrei Tarkovsky

O Espelho (Zerkalo) é o filme mais pessoal da obra do diretor russo, Andrei Tarkovsky. O longa é baseado em acontecimentos reais da vida do diretor e de sua família, e intercala a representação desses acontecimentos, com a representação de sonhos e fragmentos de documentários. A montagem de O Espelho não obedece a uma lógica narrativa, e sim a um princípio de associação de ideias. Sendo assim, a trama se desenvolve mais ou menos da forma como opera a memória. São as recordações, os sonhos, e a imaginação do narrador que compõe os acontecimentos do filme.

O narrador, chamado Alexei, representando o próprio Tarkovsky, aparentemente está próximo da morte por conta de uma doença, e começa a repassar os acontecimentos de sua vida, a começar por sua infância. Boa parte do filme se passa em uma réplica da casa onde Tarkovsky viveu quando criança, construída no mesmo local em que ela exista. Outros elementos também dão um tom autobiográfico, como: a mãe do narrador quando idosa é a própria mãe de Tarkovsky, e poemas do pai do diretor, Arseni Tarkovsky, são narrados por ele mesmo ao longo do filme.

O Espelho é composto por cinco personagens centrais: Alexei, que nunca vemos, somente ouvimos a voz; sua mulher Natalya; seu filho, Ignat; sua mãe, Maroussia, e seu pai, que pouco aparece no filme. A atriz Margarita Terekhova interpreta Natalya e, também, Maroussia quando jovem. O ator que representa Alexei quando adolescente também interpreta seu filho, Ignat. Além dos mesmos atores representando personagens diferentes em momentos distintos, algumas histórias também se repetem, como por exemplo, Alexei que se separa de sua esposa e se ausenta de seu filho, assim como seu pai se separou de sua mãe e se ausentou dele, criando um paralelo, sugerindo que algumas vidas são o espelho de outras.

O objeto espelho aparece muito durante todo o filme, é muitas vezes através desse objeto que a cena alterna do presente para o passado, ou da realidade para o sonho e vice-e-versa. Em diversos momentos os personagens também ficam encarando seus reflexos no espelho, a cena mais marcante é a de quando o jovem Alexei é deixado na sala sozinho quando Maroussia e a mulher do médico se dirigem a outro cômodo para realizar uma negociação. Sozinho, Alexei senta-se em frente a um grande espelho e encara seu reflexo, lentamente a câmera vai se aproximando, de modo que, acaba focando mais o seu reflexo, do que o próprio Alexei. A cena segue até que o reflexo olhando para o Alexei torna-se a única imagem no plano. O virtual torna-se atual e o atual, torna-se virtual.

A obra de Tarkovsky está em constante diálogo com outras artes, a música está lá, assim como a literatura, há pinturas de Da Vinci que aparecem em diversos momentos, e o próprio cinema também aparece, representado no pôster de Andrei Rublev. Além disso, a história, a Europa, a Rússia, a igreja, e a Segunda Guerra são revisitadas, uma vez que para Tarkovsky, a observação estética da realidade não se separa da observação política e histórica dessa mesma realidade.

Em O Espelho são mostrados acontecimentos antes, durante e após a Segunda Guerra. Tarkovsky utilizou filmagens de arquivo, para mostrar como a guerra marcou profundamente aquele século e é um elemento que liga os personagens. A cena que mais causa impacto é a do Exército Soviético atravessando o lago Sivash. A imagem de força esmagadora harmoniza-se perfeitamente com o poema de Arseni Tarkovsky que é declamado. Estas imagens documentais estão presentes em todo o filme, mas sempre indissoluvelmente ligadas ao ficcional.

Neste filme, Tarkovsky fala sobre maternidade e sobre infância, mais precisamente sobre a angústia que esta deixa, estes elementos são utilizados como base para uma reflexão acerca da espiritualidade do homem. Acompanhamos as memórias de um homem que sente remorso, pois percebe que não amou sua família o suficiente. O desejo de retornar à infância não é possível, assim como o de retomar o contato com sua mãe. E a história se repete, ele também não consegue estabelecer contato com seu filho; e a história se repete, a União Soviética evocada nas cenas de documentário ao longo do filme é herdeira espiritual da Rússia da carta de Púchkin, que Ignat lê em uma das cenas. O presente sempre refletindo o passado.

O Espelho é uma experiência visual e sonora incrível, lírica, e profunda. As imagens do vento, os sons das gotas de água, as sequências de sonhos magnificamente figuradas, tudo no filme possui uma intensidade rara. O destaque é para a cena final, hipnótica, comovente, em que aparecem a mãe e o pai de Alexei quando jovens, enquanto ao fundo toca ‘Paixão segundo S. João’, de Bach. Logo após, A mãe já idosa aparece caminhando com Alexei e a irmã ainda crianças, mostrando que o passado está ali, em todo seu peso, coexistindo com o presente.

 

 

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